O crédito rural continua sendo um dos principais instrumentos para viabilizar a produção, mas o custo financeiro permanece elevado. Em agosto de 2026, a Selic foi reduzida pelo Banco Central para 14% ao ano, ainda em um patamar alto para uma atividade que trabalha com ciclos longos, forte exposição ao clima e preços determinados, em grande parte, pelo mercado.
O produtor financia custeio — sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, mão de obra, manutenção e arrendamento — e também investimentos em máquinas, armazenagem, irrigação, energia e tecnologia. Quando o custo do dinheiro aumenta, uma parcela maior da receita da safra é comprometida com o financiamento, reduzindo a margem e elevando o ponto de equilíbrio.
O problema, portanto, não é apenas ter crédito, mas conseguir crédito no momento certo, pelo custo adequado e em volume compatível com a necessidade da propriedade. Taxas, garantias, análise de risco, documentação, regularidade ambiental e tempo de liberação podem alterar completamente o orçamento inicialmente planejado.
Além disso, produtores que não conseguem acessar as melhores condições podem recorrer a alternativas como barter, financiamento privado, antecipação de recebíveis e crédito junto às revendas. Essas alternativas podem resolver o problema de liquidez, mas também podem elevar o custo financeiro e reduzir o poder de negociação do produtor.
Em 2026, o governo também criou mecanismos específicos para composição e renegociação de dívidas rurais de produtores atingidos por perdas climáticas e econômicas, mostrando que o endividamento acumulado se tornou uma questão relevante para a política agrícola.
O Plano Safra 2026/2027 trouxe um volume recorde de R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial, R$ 9 bilhões acima do ciclo anterior. Desse total, R$ 384,9 bilhões são destinados a custeio e comercialização e R$ 140,2 bilhões a investimentos.
Para o Pronamp, estão previstos R$ 72,6 bilhões, com taxa de 9% ao ano para custeio. Para as linhas de investimento, as taxas variam conforme o programa e a finalidade, chegando a 12,5% ao ano em algumas modalidades.
Isso representa um avanço importante, mas o número anunciado não deve ser confundido com dinheiro automaticamente disponível para cada produtor. A contratação depende de enquadramento, disponibilidade das instituições financeiras, garantias, documentação, análise de risco e regularidade do imóvel.
Além disso, as linhas com juros mais favorecidos tendem a concentrar a demanda. Por isso, o desafio atual é transformar o volume anunciado em crédito efetivamente contratado, no momento correto e com custo compatível com a rentabilidade da atividade.
O Plano Safra 2026/2027 também passou a utilizar de maneira mais explícita a regularidade ambiental como instrumento de política de crédito: produtores com CAR ativo e determinadas condições de regularização ambiental podem obter redução de até 1 ponto percentual na taxa de custeio, somando benefícios ambientais e adoção de práticas sustentáveis.
O seguro rural continua sendo um dos maiores pontos frágeis da política agrícola brasileira.
O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) possui orçamento e regras para 2026, inclusive com distribuição de recursos ao longo do ano, mas a cobertura permanece muito aquém do universo de áreas e produtores expostos ao risco climático.
O problema não é simplesmente contratar uma apólice. É conseguir uma cobertura adequada, com prêmio viável, condições previsíveis e contratação antes que o risco se materialize.
Quando a subvenção é insuficiente ou chega de forma pouco previsível, o produtor pode desistir do seguro ou contratar uma cobertura menor do que aquela necessária. O resultado é uma transferência excessiva do risco climático para quem produz.
Em uma atividade em que uma única seca, enchente, geada ou granizo pode comprometer toda uma safra, seguro rural não pode ser tratado como benefício acessório. Ele precisa funcionar como instrumento de estabilidade econômica e de sustentação do próprio crédito rural.
O clima se tornou uma variável central da gestão agrícola.
Secas, excesso de chuva, geadas, granizo, vendavais, ondas de calor e outros eventos extremos podem reduzir produtividade, alterar calendários de plantio e colheita, aumentar custos e comprometer o fluxo de caixa.
O próprio Banco Central destaca que fenômenos como secas, geadas, enchentes e chuvas excessivas provocam perdas agrícolas significativas e vêm exigindo instrumentos mais sofisticados de monitoramento e gestão de risco.
Em julho de 2026, o governo precisou criar linhas especiais para produtores que sofreram perdas significativas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda agropecuária esperada em determinadas situações.
Isso mostra que o problema deixou de ser apenas uma ocorrência eventual. O agricultor precisa incorporar gestão climática, seguro, irrigação, conservação de solo e água, tecnologia, diversificação e planejamento de risco ao próprio modelo de produção.
Sem isso, uma quebra de safra pode gerar um efeito dominó: perda de receita, endividamento, renegociação, redução de investimento e menor capacidade produtiva na safra seguinte.
O Brasil continua fortemente dependente do mercado internacional para importantes insumos agrícolas, especialmente fertilizantes.
Em 2025, a Rússia respondeu por 25,9% das importações brasileiras de fertilizantes e a China por 18,8%; o Oriente Médio respondeu por 14,5%. Os fertilizantes nitrogenados, por sua vez, representaram aproximadamente um terço das importações brasileiras de fertilizantes naquele ano.
Essa dependência faz com que o custo de produção seja sensível ao câmbio, aos preços internacionais, ao petróleo, ao gás natural, à logística global e a conflitos geopolíticos.
Quando o dólar sobe ou ocorre alguma interrupção na oferta internacional, o impacto pode chegar rapidamente ao produtor. O pacote de insumos fica mais caro, o orçamento por hectare muda e a margem da atividade pode ser comprimida.
Por isso, planejamento de compras, armazenagem, contratos antecipados, barter e estratégias de proteção de preços passaram a ter importância ainda maior.
A agricultura brasileira tornou-se altamente produtiva e tecnológica, mas produtividade não significa automaticamente rentabilidade.
O produtor pode colher mais por hectare e, ainda assim, ter sua margem reduzida quando fertilizantes, defensivos, máquinas, combustível, frete, mão de obra e juros aumentam mais rapidamente do que o preço recebido pela produção.
Essa é uma das grandes contradições da agricultura moderna: o produtor assume riscos crescentes para produzir em escala, mas nem sempre consegue controlar o preço de venda nem repassar integralmente os aumentos de custo.
Em 2026, projeções da CNA apontaram redução do Valor Bruto da Produção agropecuária em relação a 2025, evidenciando que produção elevada não elimina os efeitos da oscilação de preços e custos.
Na prática, o produtor continua produzindo “no limite”. Uma combinação de queda de preço, perda de produtividade ou aumento de custo pode transformar uma safra aparentemente boa em uma operação de baixa rentabilidade.
O produtor precisa cumprir uma quantidade crescente de exigências ambientais e de rastreabilidade. Quando há embargo ou restrição administrativa, o impacto pode ultrapassar a área diretamente atingida.
Um embargo pode dificultar a comercialização, provocar exigências adicionais de compradores e instituições financeiras e aumentar o custo de regularização.
O problema não está na existência de regras ambientais — que são necessárias —, mas na previsibilidade, clareza, uniformidade e velocidade dos processos de regularização.
Quando o produtor não consegue saber com clareza qual exigência precisa cumprir, qual órgão é responsável e quanto tempo levará para obter uma resposta, a insegurança jurídica passa a interferir diretamente na produção, no crédito e no investimento.
O Cadastro Ambiental Rural deixou de ser apenas uma obrigação cadastral e passou a ter peso crescente na análise de acesso ao crédito.
O governo criou inclusive o painel “Tô em dia?”, dentro da aplicação Meu Imóvel Rural, para permitir que o produtor consulte antecipadamente pendências que podem afetar o acesso ao financiamento. O próprio governo ressalta, porém, que estar em conformidade não garante automaticamente a aprovação do crédito, que continua dependendo da instituição financeira.
Além disso, novas regras do Manual de Crédito Rural ampliaram a verificação de supressão de vegetação nativa e estabeleceram cronogramas progressivos de aplicação conforme o tamanho do imóvel.
Isso torna ainda mais importante manter CAR, PRA, autorizações ambientais e demais documentos atualizados.
O problema surge quando o produtor fica preso em pendências, sobreposições, inconsistências cartográficas ou demora de análise. Uma questão documental pode acabar afetando financiamento, renovação de crédito, investimento e comercialização.
A logística continua sendo um dos principais componentes do custo agrícola brasileiro.
O produtor está frequentemente distante dos grandes centros consumidores, portos, indústrias e estruturas de armazenamento. O transporte rodoviário continua tendo papel fundamental, especialmente para grãos e insumos.
Em 2026, a ANTT atualizou os pisos mínimos de frete incorporando, entre outros fatores, a variação de 3,54% do IPCA entre dezembro de 2025 e maio de 2026 e um preço de referência de R$ 6,97 para o litro do diesel S10.
O problema é que o custo logístico aumenta justamente nos momentos de maior movimentação da safra, quando existe maior pressão sobre transporte e armazenagem.
O produtor nem sempre consegue repassar integralmente esse custo para o preço recebido. Assim, frete, diesel, pedágios, distância e gargalos de infraestrutura acabam sendo descontados da margem.
A burocracia continua sendo um custo invisível — mas muito real — para o produtor.
São cadastros, licenças, registros, obrigações fiscais, ambientais, trabalhistas, fundiárias e sanitárias, muitas vezes administradas por órgãos diferentes e com sistemas que não conversam adequadamente entre si.
O resultado é tempo perdido, contratação de consultorias, laudos, georreferenciamento, deslocamentos, taxas e retrabalho.
O agricultor precisa provar repetidamente que está regular, muitas vezes fornecendo informações semelhantes a diferentes órgãos.
Em uma atividade em que o tempo é decisivo — plantio, aplicação, colheita, comercialização e contratação de crédito têm janelas específicas — burocracia também é custo de produção.
A insegurança jurídica permanece entre os fatores que mais prejudicam o investimento de longo prazo.
Mudanças de regras, interpretações diferentes entre órgãos, exigências ambientais, trabalhistas e fundiárias e a possibilidade de autuações ou contestações fazem com que o produtor tenha dificuldade de calcular o risco futuro.
O problema não é apenas cumprir a lei. É saber qual regra vale, como ela será interpretada e quanto custará cumpri-la.
Isso aumenta o chamado custo de conformidade e pode levar o produtor a adiar investimentos em expansão, tecnologia, infraestrutura e contratação de mão de obra.
A segurança jurídica precisa caminhar junto com a política agrícola: quem produz precisa saber quais são as regras do jogo antes de colocar capital, tecnologia e trabalho na terra.
O mercado internacional está aumentando as exigências ambientais e de rastreabilidade.
A União Europeia mantém a entrada em aplicação do Regulamento Europeu contra o Desmatamento (EUDR) para 30 de dezembro de 2026 no caso de operadores médios e grandes, e para 30 de junho de 2027 para micro e pequenas empresas, com algumas exceções previstas na própria regulamentação.
A regra alcança produtos como soja, café, carne bovina, cacau, óleo de palma, borracha e madeira e exige comprovação de que os produtos são livres de desmatamento e produzidos de acordo com a legislação aplicável.
Para o agricultor, isso significa que produzir bem já não basta. Será cada vez mais necessário comprovar origem, localização, regularidade e rastreabilidade da produção.
Essa mudança pode representar custo adicional, mas também pode se transformar em vantagem competitiva para o produtor brasileiro que conseguir estruturar seus processos e demonstrar conformidade.
O produtor rural precisa tomar decisões meses antes de saber qual será o preço de venda.
Nesse intervalo, podem mudar juros, câmbio, preço dos fertilizantes, frete, demanda internacional, clima e condições de comercialização.
Em agosto de 2026, mesmo com a redução da Selic para 14%, o Banco Central ainda apontava inflação esperada acima da meta e ambiente externo marcado por elevada incerteza e volatilidade de preços de ativos e commodities.
Para o agricultor, isso significa dificuldade crescente para “travar” o resultado da safra.
Hedge, contratos a termo, barter, venda antecipada e outras ferramentas de proteção podem reduzir riscos, mas exigem conhecimento, acesso ao mercado e capacidade financeira.
Quem não consegue utilizar esses mecanismos fica mais exposto às oscilações e pode acabar tomando decisões importantes com pouca previsibilidade.
A conectividade rural avançou muito, mas ainda não é homogênea.
Os dados mais recentes do IBGE mostram que, em 2025, 88% dos domicílios rurais tinham acesso à internet, contra 95,8% dos urbanos. A diferença caiu significativamente em relação a 2016, mas ainda permanece. Na área rural, apenas 68% dos domicílios registraram funcionamento de rede móvel celular para internet ou telefonia.
Isso é especialmente importante porque a agricultura moderna depende cada vez mais de sistemas digitais: emissão de documentos, controle de estoque, mapas, registros de aplicação, monitoramento de máquinas, rastreabilidade, CAR, sistemas fiscais, crédito e comercialização.
Sem conectividade confiável, o produtor perde tempo, aumenta o retrabalho e fica mais sujeito a erros e inconsistências.
A transformação digital do campo, portanto, não depende apenas de máquinas e aplicativos. Depende também de infraestrutura de comunicação que funcione onde o agricultor trabalha.
A escassez de mão de obra passou a ser um dos problemas mais concretos do campo.
Um estudo divulgado pela CNA em agosto de 2026, elaborado em parceria com o Cepea/Esalq/USP, mostrou que 94,8% dos produtores pesquisados relatam alguma dificuldade de contratação, enquanto 84,3% trabalham com quadro inferior ao necessário. Além disso, 44,5% apontaram a mão de obra como o principal desafio enfrentado no campo.
As consequências são práticas: atrasos nas operações, aumento dos custos, adiamento de investimentos e expansão, redução da produção e antecipação da mecanização e automação.
O problema não é apenas encontrar trabalhadores. É encontrar profissionais capazes de operar máquinas modernas, sistemas digitais, equipamentos de precisão e processos cada vez mais sofisticados.
A agricultura brasileira se modernizou mais rapidamente do que a formação e a disponibilidade de parte da mão de obra necessária para acompanhar essa transformação.
Por isso, o desafio do campo não será apenas produzir mais. Será produzir mais com tecnologia, qualificação profissional, conectividade, segurança jurídica, crédito adequado e gestão de riscos.
O agricultor brasileiro não enfrenta hoje um único problema. Ele enfrenta uma combinação de riscos que se reforçam mutuamente.
Crédito caro aumenta o custo. O clima ameaça a produtividade. O seguro ainda não cobre adequadamente o risco. O câmbio interfere nos insumos. O frete pesa na comercialização. A burocracia consome tempo. A regularidade ambiental influencia o crédito. Os mercados externos exigem rastreabilidade. A mão de obra está escassa. E a tecnologia, embora avance, ainda não chega com a mesma qualidade a todas as propriedades.
O resultado é que o agricultor não trabalha apenas para produzir. Trabalha para administrar riscos.
E existe uma verdade que precisa ser lembrada por toda a sociedade:
SE O AGRICULTOR NÃO PLANTA, VOCÊ NÃO ALMOÇA E NEM JANTA!
Por isso, política agrícola não pode ser tratada apenas como política de crédito. Ela precisa integrar produção, renda, seguro, clima, infraestrutura, logística, tecnologia, mão de obra, segurança jurídica, meio ambiente e acesso aos mercados.
O Brasil tem condições extraordinárias para continuar sendo uma potência agropecuária. Mas, para isso, precisa garantir ao produtor aquilo que toda atividade econômica necessita para investir e crescer: previsibilidade, segurança e condições para produzir.
Espaço reservado para dados obrigatórios de propaganda eleitoral:
ELEICAO 2026 VALDIR COLATTO DEPUTADO FEDERAL
CNPJ: 68.437.797/0001-97